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Lyra Pramuk e a performance como ritual coletivo

A artista berlinense Lyra Pramuk transforma seus shows em rituais de cura coletivos, usando colaboração, espaço e improvisação para reorganizar as músicas dos álbuns Fountain e Delta.

Por N9VE Escola de DJs15 de agosto de 2026
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Lyra Pramuk e a performance como ritual coletivo

Lyra Pramuk, cantora, compositora, produtora e artista performática baseada em Berlim, tem uma prática marcada pela espiritualidade metafísica e por uma sensibilidade dedicada, que aparece em sua releitura de um folk eletrônico futurista. No palco, contudo, a presença que emerge é menos descritível: suas apresentações ao vivo funcionam como rituais coletivos de cura que convidam o público a jornadas íntimas entre mente e corpo.

Fountain e Delta em cena

O álbum de estreia Fountain saiu em março de 2020; Delta, de 2021, é um disco de remixes que convidou uma dúzia de artistas a reinterpretarem Fountain. Por conta da pandemia, muitas pessoas conheceram o trabalho de Lyra primeiro por esses registros e só agora, com a retomada de turnês, têm a oportunidade de vivenciá-los ao vivo. Ela mantém no set tanto trechos de Delta quanto execuções mais tradicionais de Fountain, deixando as faixas se misturarem conforme seu humor e a experiência do público.

COLABORAÇÃO RECONFIGURA AS FAIXAS

Lyra descreve sua abordagem performática como interdisciplinar: cada versão de uma mesma peça pode ser recontextualizada para públicos diferentes. Apresentações com dançarinos transformaram o espetáculo numa meditação sobre como corpos se relacionam no espaço. Cantar com um conjunto de câmara soou distinto de dividir o palco com dois bailarinos do KDV Dance Ensemble. Para ela, em muitos momentos a experiência se aproxima mais de um jam coletivo do que da reprodução de material de estúdio, e a música passa a pertencer não só a ela, mas também aos mais de 40 colaboradores que já participaram.

O papel do espaço físico

Antes mesmo de pensar em colaboradores, Lyra sempre se preocupou com a noção de espaço nas apresentações. Arquitetura, altura do pé-direito e materiais das paredes influenciam a acústica e a forma como ela sente e projeta a voz. Clubes com tetos baixos, por exemplo, alteraram a maneira como ela se movimenta. Essas variáveis definem a 'totalidade da experiência' e reforçam a ideia de performance como ritual coletivo: o último momento do show, com a faixa 'New Moon', é descrito por ela como uma catarse pagã em que o espaço serve para a expansão de almas, mentes e corpos.

Abertura à vulnerabilidade

A estrutura do show segue a intenção do álbum, que Lyra concebeu como um rastreio do luto e da retomada do eu até a alegria. Ao organizar as músicas em ciclo, ela cria um ambiente para um ritual coletivo de cura que transcende sua experiência pessoal. Convidar o público e outros intérpretes a essa jornada exige, segundo ela, segurar um processo emocional intenso, mas compensador; estética e forma importam, mas sempre a serviço de trazer mundos interiores para uma expressão externa.

INTERPRETAÇÃO E AUTONOMIA DO PÚBLICO

Lyra rejeita a ideia de ditar o que o público deve sentir. Inspirada pelo ensaio 'Against Interpretation' de Susan Sontag, ela considera que interpretar demais empobrece a obra e a experiência individual. Prefere que a obra exista como um objeto que permita múltiplas leituras e, sobretudo, sensações que não passam necessariamente pela explicação racional.

PRESENÇA, CORPO E INTUIÇÃO

Para Lyra, cada apresentação é uma oportunidade de autoquestionamento: 'O que eu preciso desta performance? Onde eu estou agora?' O estado físico e emocional no dia influencia quanto ela consegue estar presente. Ela enfatiza a conexão entre corpo e cérebro, defendendo que a intuição e a sensação não verbal orientam muito do que acontece em cena. Meditar, focar e prestar atenção ao corpo são formas de acessar essa informação silenciosa durante a performance.

Reportagem por Claire Mouchemore. Fotos por Pedro S. Küster. Esta matéria foi publicada originalmente na edição S/S 2022 da revista Fact.

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