
Alguns DJs ficam estranhamente ofendidos com a ideia de outros DJs praticarem. Voltar a rotinas de set, ensaiar transições, planejar a sequência de um mix, tudo isso faria você ser, de alguma forma, menos DJ “de verdade”.
Eu acho isso um absurdo, e nosso tutor James Hype pensa o mesmo. Ele publicou recentemente nas redes sociais uma mensagem que gerou reações mistas. Em suas palavras (trecho editado para os pontos principais):
Algumas pessoas ficam estranhamente ofendidas pela ideia de DJs praticarem. Ninguém nasce com a confiança para fazer isso na frente de milhares de pessoas. Você constrói essa confiança sozinho, antes de alguém estar olhando.
Ninguém iria ver sua banda favorita e pensar, “espero que eles não tenham ensaiado isto”. Ninguém vê um time de futebol entrar e desejar, “espero que não tenham treinado demais”. Mas com DJs, prática é confundida com fingimento.
Para ele, é o oposto: praticar significa cuidar da preparação. Significa respeitar quem comprou ingresso. Respeitar a música. Significa que, se você vai se colocar numa posição em que se espera precisão, deve fazer o trabalho antes de chegar lá.
Nem todo set precisa ser ensaiado, e nem todo momento deve ser planejado. Mas quando o objetivo é empurrar o lado técnico ao máximo, ele não deixa isso ao acaso. É uma forma de garantir que, no pior dia, o resultado ainda seja bom quando importar.
Com uma banda, a apresentação é em grande parte ensaiada. Setlist, arranjos, solos e até as conversas entre músicas são combinados previamente. Ainda assim há conexão humana e instrumentos em cena, tudo acontecendo na mesma sala. Ninguém chama isso de inautêntico.
O autor recorda uma ida dirigindo de Manchester a Lancaster University para ver Carl Cox tocar 90 minutos em três toca-discos. Foi um dos melhores DJs do mundo apresentando mixagens altamente técnicas. Aquilo foi, claro, em parte ensaiado. Sets DJ muito técnicos ficam mais próximos de um show de banda do que de uma jam livre. Um pouco de improviso existe, mas muito é roteiro. E não há nada de errado nisso.

Times de futebol treinam jogadas ensaiadas, estudam tática, trabalham condicionamento, comunicação e memória muscular. Habilidades individuais são repetidas até a perfeição. Mas quando o juiz apita, o que acontece em campo não pode ser inteiramente ensaiado.
Isso se parece com muitos sets de DJ. Jogadores ainda recorrem a padrões planejados e jogadas de confiança; assim também um DJ tem elementos que quer executar no set, mantendo flexibilidade para a plateia. Seja seguindo material planejado como uma banda, improvisando tudo, ou misturando os dois (o que a maioria dos DJs faz), se você entrega o que se espera e faz bem, cumpriu o papel. E nada disso acontece sem prática.
O primeiro set mixado em público tocado pelo autor foi num pequeno clube chamado Testarossa, perto da famosa Hacienda. Um set de uma hora em vinil. Naquela época não havia outra opção.
Ele estava tão nervoso que tinha a setlist e cada transição escritas num cartão postal escondido sob o booth. As mãos tremiam tanto que mal conseguia colocar a agulha nos sulcos sem que pulasse. Longe de estar lendo a pista, reagindo ao momento ou perdido na reverência de ser DJ. Ele estava apavorado.
Era o melhor set que já tocou? A resposta é óbvia. Mas comparecer e fazer o trabalho, sim, ele fez. Para qualquer DJ que ame a prática, isso sempre basta. É sobre o agora e as pessoas na sala com você. Fazer o melhor, do jeito que souber.
Por fim, se você consegue criar um clima, conectar-se com o público, aprender com a experiência e voltar para repetir, James Hype considera você um herói. Praticar tanto quanto for necessário para chegar a esse ponto não faz de ninguém menos DJ.


