Mercado da Música

Os DJs que já mudaram a eletrônica e ninguém percebeu ainda

Doze DJs, quatro brasileiros e uma pesquisa cruzando Spotify, Beatport e booking internacional para mapear quem realmente está mudando a pista em 2026.

Por N9VE Escola de DJs•07 de setembro de 2026
eletrônica 2026KETTAMAminimal tech houseUK garagehard technoDJs brasileiros internacionaisBeatport Awardscena eletrônica global
Os DJs que já mudaram a eletrônica e ninguém percebeu ainda

Enquanto o topo dos cartazes segue repetindo os mesmos seis ou sete nomes, uma safra de DJs cresce por trás dos grandes números: mais streaming, mais Beatport, mais booking internacional e mais influência sobre quem toca depois deles. Dois brasileiros estão nessa lista, e um levantamento mais amplo aponta outros dois nomes fortes que ainda não tinham entrado na conta.

Cinco critérios sustentam esse recorte: crescimento de audiência em Spotify e SoundCloud, performance comercial no Beatport, booking internacional em praças como Ibiza, Europa e Estados Unidos, influência sobre outros produtores e um momento de carreira que ainda não empurrou o artista para o mainstream tradicional.

A RAVE QUE VIROU PISTA GLOBAL

KETTAMA soma hoje algo entre 3,7 e 4,1 milhões de ouvintes mensais no Spotify, número expressivo para um artista que vem da cultura de rave e não da fórmula EDM. Em 2026 comandou nove semanas seguidas de residência no Terraço da Amnesia Ibiza, todas as segundas de junho e julho, levando para a cabine nomes como Josh Baker, DJ Heartstring, Nia Archives, VTSS e Riordan.

Fez a primeira B2B da carreira com Michael Bibi no Tomorrowland em julho e, semanas depois, lançou com ele o single “Mystery of Raw”, que amostra o Wu Tang Clan. E entrou de fato no universo pop: está entre os remixes de “Never Enough: Versions”, o álbum de reinterpretações do Turnstile que reúne Four Tet, Floating Points e A.G. Cook.

O MINIMAL TECH HOUSE TOMANDO CONTA DA PISTA
Josh Baker

Josh Baker levou o prêmio de Producer of the Year no Beatport Awards 2026, disputado com Dlala Thukzin, HAAi, MPH e Sherelle. É reconhecimento de indústria, não só de números: o relatório de inteligência musical do SoundCloud de 2026 registra a cena de minimal tech house crescendo cerca de 18% em streams nos Estados Unidos no último ano, puxada por nomes como Chris Stussy, os irmãos Max e Luke Dean, Rossi. e o próprio Baker.

Rossi. está no mesmo núcleo. Em 2026 levou o prêmio de Best Livestream no Beatport Awards, por uma sessão gravada em Nova York. Tem menos streaming que KETTAMA ou Josh Baker, mas puxa influência entre DJs, o tipo de força que não aparece direto no número de ouvintes.

Rossi.
UK GARAGE NOS GRANDES PALCOS

Sammy Virji concorreu a Best Dance Act no BRIT Awards 2026 ao lado de Calvin Harris e Clementine Douglas, FKA Twigs, PinkPantheress e Fred again com Skepta e PlaqueBoyMax, que levaram a estatueta. Não ganhar não tira força da pauta: ele esgotou duas noites seguidas no Alexandra Palace, dez mil lugares por noite, com Barry Can’t Swim subindo ao centro da pista para uma B2B na primeira delas, e fechou o verão com show próprio no Finsbury Park.

Sammy Virji — dois shows esgotados, dez mil pessoas por noite

Oppidan abriu justamente esse show do Finsbury Park, ao lado de Malugi, Pretty Girl e Jaguar, o que confirma a leitura de geração pós Sammy Virji: musicalmente ela representa a safra nova de UK garage, 2 step e bass que vem logo atrás dele.

Oppidan
HARD TECHNO VIROU HEADLINER DE FESTIVAL GRANDE

Sara Landry tem entre 1,1 e 1,6 milhão de ouvintes mensais no Spotify. Dividiu o topo do cartaz do Movement Detroit 2026 com Carl Cox e Dom Dolla, celebrando os vinte anos do festival, fez sua estreia na Ultra Miami com B2B histórica ao lado de Amelie Lens no palco Resistance e apareceu na programação do Tomorrowland. É o retrato mais claro de migração do underground para fenômeno global que a cena teve neste ano.

Sara Landry — estreia na Ultra Miami com Amelie Lens no palco Resistance
O BRASIL NÃO É SÓ ALOK E VINTAGE CULTURE

Mochakk tem cerca de 1,6 milhão de ouvintes mensais no Spotify, mais de 99 milhões de streams acumulados e nome verdadeiro Pedro Maia. Em 2026 esteve no Movement Detroit ao lado de Sara Landry e Dom Dolla e fechou a temporada do [UNVRS] em Ibiza, ao lado de Adriatique e The Martinez Brothers.

Mochakk

Beltran, nome artístico de Juliano Beltran, gaúcho de Bento Gonçalves, chegou ao topo do Beatport em 2022 com “Smack Yo”, pelo selo Solid Grooves de Michael Bibi, e a faixa segue rendendo frutos. Em 2026 ele gravou sessão ao vivo na sede da DJ Mag em Londres, direto de um show de dezessete horas em Nova York, e tocou no KOKO. Recebe apoio recorrente de Michael Bibi, Jamie Jones, Marco Carola e Mochakk, companhia que mostra que o Brasil hoje exporta presença de palco tanto quanto produção.

Beltran — de Bento Gonçalves para o circuito global
O NOME QUE AINDA NÃO É ÓBVIO

Jamback entrou na lista de Artists to Watch 2026 da DJ Mag, que descreve o holandês mais como compositor do que produtor, com mais de 150 shows em 2025.

Jamback

“Positive” levou o prêmio de Longest Running Beatport Number One no Beatport Awards 2026, o dado mais forte de toda a pesquisa porque cruza pista, chart e reconhecimento de indústria ao mesmo tempo.

TRANCE, EURODANCE E HOUSE EMOCIONAL SEM NOSTALGIA FORÇADA

DJ Heartstring assina “If U Want My Heart” no álbum de estreia de KETTAMA, “Archangel”, e integrou tanto a residência do Amnesia quanto o Movement Detroit 2026, numa B2B com X Club. É outra transformação da cena que não aparece se você só olha para tech house: uma linguagem que mistura trance, eurodance e house emocional, sem simplesmente reciclar os anos noventa.

DJ Heartstring
QUEM FICOU DE FORA E POR QUÊ

Mau P levou Best Selling Track of the Year no Beatport Awards 2026 com “Like I Like It”, mas o prêmio de Best Selling Artist foi para Chris Lake. Ainda assim, junto com John Summit, Dom Dolla, Fisher, Peggy Gou e Fred again, ele já cruzou para uma categoria diferente: são nomes que vieram do underground mas já chegaram ao topo, e por isso ficam de fora do top dez.

Mau P
Chris Lake
John Summit
Dom Dolla
Fisher
Peggy Gou
Fred again

A fragmentação é o fio condutor real da matéria. O relatório do SoundCloud confirma que a eletrônica passou de um quarto para mais de um terço dos uploads da plataforma entre 2020 e 2025, que o share de escuta da eletrônica cresceu cerca de 6% desde 2022 e que uploads com a hashtag DJSET subiram 39% em um ano. Nos Estados Unidos, esse crescimento aparece quebrado por subgênero: 18% a 19% para minimal tech house e UK garage, 35% para dubstep.

Não existe hoje um estilo único que substituiu o EDM. Existe um conjunto de cenas menores se encontrando ao mesmo tempo: UK garage cruzando com house, trance reencontrando o techno, minimal esbarrando no tech house. E DJs que tocavam para quinhentas pessoas há três anos hoje comandam residência em Ibiza e festival para dezenas de milhares.

DOIS NOMES BRASILEIROS A MAIS PARA FICAR DE OLHO

FEZZO, dupla de tech house e techno, colocou “How Does It Feel”, com Dubdogz e Zaark, entre as três primeiras posições do Top 100 Tech House do Beatport em junho e julho de 2026, com apoio declarado de Vintage Culture, Gordo, Mochakk e Illusionize. É um caso de produção pura furando o circuito internacional sem depender ainda de festival grande.

FEZZO — o Brasil também exporta tech house e techno

ANNA, nome artístico de Ana Lídia Miranda, paulista de Amparo, é uma das primeiras brasileiras a alcançar reconhecimento internacional em techno, com lançamentos por selos como Drumcode e Afterlife. Em 2026 tocou no Movement Detroit ao lado de Sara Landry e Mochakk e segue em rotação por festivais europeus, puxando o mesmo argumento de exportação brasileira, só que pelo lado do techno.

ANNA

Onde ouvir e seguir: KETTAMA, Josh Baker, Sammy Virji, Sara Landry, Jamback, Rossi., Mochakk, Beltran, Oppidan, DJ Heartstring, FEZZO e ANNA.