Enquanto o topo dos cartazes segue repetindo os mesmos seis ou sete nomes, uma safra de DJs cresce por trás dos grandes números: mais streaming, mais Beatport, mais booking internacional e mais influência sobre quem toca depois deles. Dois brasileiros estão nessa lista, e um levantamento mais amplo aponta outros dois nomes fortes que ainda não tinham entrado na conta.
Cinco critérios sustentam esse recorte: crescimento de audiência em Spotify e SoundCloud, performance comercial no Beatport, booking internacional em praças como Ibiza, Europa e Estados Unidos, influência sobre outros produtores e um momento de carreira que ainda não empurrou o artista para o mainstream tradicional.
KETTAMA soma hoje algo entre 3,7 e 4,1 milhões de ouvintes mensais no Spotify, número expressivo para um artista que vem da cultura de rave e não da fórmula EDM. Em 2026 comandou nove semanas seguidas de residência no Terraço da Amnesia Ibiza, todas as segundas de junho e julho, levando para a cabine nomes como Josh Baker, DJ Heartstring, Nia Archives, VTSS e Riordan.
Fez a primeira B2B da carreira com Michael Bibi no Tomorrowland em julho e, semanas depois, lançou com ele o single “Mystery of Raw”, que amostra o Wu Tang Clan. E entrou de fato no universo pop: está entre os remixes de “Never Enough: Versions”, o álbum de reinterpretações do Turnstile que reúne Four Tet, Floating Points e A.G. Cook.

Josh Baker levou o prêmio de Producer of the Year no Beatport Awards 2026, disputado com Dlala Thukzin, HAAi, MPH e Sherelle. É reconhecimento de indústria, não só de números: o relatório de inteligência musical do SoundCloud de 2026 registra a cena de minimal tech house crescendo cerca de 18% em streams nos Estados Unidos no último ano, puxada por nomes como Chris Stussy, os irmãos Max e Luke Dean, Rossi. e o próprio Baker.
Rossi. está no mesmo núcleo. Em 2026 levou o prêmio de Best Livestream no Beatport Awards, por uma sessão gravada em Nova York. Tem menos streaming que KETTAMA ou Josh Baker, mas puxa influência entre DJs, o tipo de força que não aparece direto no número de ouvintes.

Sammy Virji concorreu a Best Dance Act no BRIT Awards 2026 ao lado de Calvin Harris e Clementine Douglas, FKA Twigs, PinkPantheress e Fred again com Skepta e PlaqueBoyMax, que levaram a estatueta. Não ganhar não tira força da pauta: ele esgotou duas noites seguidas no Alexandra Palace, dez mil lugares por noite, com Barry Can’t Swim subindo ao centro da pista para uma B2B na primeira delas, e fechou o verão com show próprio no Finsbury Park.

Oppidan abriu justamente esse show do Finsbury Park, ao lado de Malugi, Pretty Girl e Jaguar, o que confirma a leitura de geração pós Sammy Virji: musicalmente ela representa a safra nova de UK garage, 2 step e bass que vem logo atrás dele.

Sara Landry tem entre 1,1 e 1,6 milhão de ouvintes mensais no Spotify. Dividiu o topo do cartaz do Movement Detroit 2026 com Carl Cox e Dom Dolla, celebrando os vinte anos do festival, fez sua estreia na Ultra Miami com B2B histórica ao lado de Amelie Lens no palco Resistance e apareceu na programação do Tomorrowland. É o retrato mais claro de migração do underground para fenômeno global que a cena teve neste ano.

Mochakk tem cerca de 1,6 milhão de ouvintes mensais no Spotify, mais de 99 milhões de streams acumulados e nome verdadeiro Pedro Maia. Em 2026 esteve no Movement Detroit ao lado de Sara Landry e Dom Dolla e fechou a temporada do [UNVRS] em Ibiza, ao lado de Adriatique e The Martinez Brothers.

Beltran, nome artístico de Juliano Beltran, gaúcho de Bento Gonçalves, chegou ao topo do Beatport em 2022 com “Smack Yo”, pelo selo Solid Grooves de Michael Bibi, e a faixa segue rendendo frutos. Em 2026 ele gravou sessão ao vivo na sede da DJ Mag em Londres, direto de um show de dezessete horas em Nova York, e tocou no KOKO. Recebe apoio recorrente de Michael Bibi, Jamie Jones, Marco Carola e Mochakk, companhia que mostra que o Brasil hoje exporta presença de palco tanto quanto produção.

Jamback entrou na lista de Artists to Watch 2026 da DJ Mag, que descreve o holandês mais como compositor do que produtor, com mais de 150 shows em 2025.

“Positive” levou o prêmio de Longest Running Beatport Number One no Beatport Awards 2026, o dado mais forte de toda a pesquisa porque cruza pista, chart e reconhecimento de indústria ao mesmo tempo.
DJ Heartstring assina “If U Want My Heart” no álbum de estreia de KETTAMA, “Archangel”, e integrou tanto a residência do Amnesia quanto o Movement Detroit 2026, numa B2B com X Club. É outra transformação da cena que não aparece se você só olha para tech house: uma linguagem que mistura trance, eurodance e house emocional, sem simplesmente reciclar os anos noventa.

Mau P levou Best Selling Track of the Year no Beatport Awards 2026 com “Like I Like It”, mas o prêmio de Best Selling Artist foi para Chris Lake. Ainda assim, junto com John Summit, Dom Dolla, Fisher, Peggy Gou e Fred again, ele já cruzou para uma categoria diferente: são nomes que vieram do underground mas já chegaram ao topo, e por isso ficam de fora do top dez.







A fragmentação é o fio condutor real da matéria. O relatório do SoundCloud confirma que a eletrônica passou de um quarto para mais de um terço dos uploads da plataforma entre 2020 e 2025, que o share de escuta da eletrônica cresceu cerca de 6% desde 2022 e que uploads com a hashtag DJSET subiram 39% em um ano. Nos Estados Unidos, esse crescimento aparece quebrado por subgênero: 18% a 19% para minimal tech house e UK garage, 35% para dubstep.
Não existe hoje um estilo único que substituiu o EDM. Existe um conjunto de cenas menores se encontrando ao mesmo tempo: UK garage cruzando com house, trance reencontrando o techno, minimal esbarrando no tech house. E DJs que tocavam para quinhentas pessoas há três anos hoje comandam residência em Ibiza e festival para dezenas de milhares.
FEZZO, dupla de tech house e techno, colocou “How Does It Feel”, com Dubdogz e Zaark, entre as três primeiras posições do Top 100 Tech House do Beatport em junho e julho de 2026, com apoio declarado de Vintage Culture, Gordo, Mochakk e Illusionize. É um caso de produção pura furando o circuito internacional sem depender ainda de festival grande.

ANNA, nome artístico de Ana Lídia Miranda, paulista de Amparo, é uma das primeiras brasileiras a alcançar reconhecimento internacional em techno, com lançamentos por selos como Drumcode e Afterlife. Em 2026 tocou no Movement Detroit ao lado de Sara Landry e Mochakk e segue em rotação por festivais europeus, puxando o mesmo argumento de exportação brasileira, só que pelo lado do techno.

Onde ouvir e seguir: KETTAMA, Josh Baker, Sammy Virji, Sara Landry, Jamback, Rossi., Mochakk, Beltran, Oppidan, DJ Heartstring, FEZZO e ANNA.



